Era mais um trabalho de conclusão de curso universitário fadado a entrar pra biblioteca da faculdade e ser esquecido. Mas, o estudante Edson Soares aceitou a sugestão de um dos membros de sua banca avaliadora, o cineasta Kiko Goifman, e resolveu inscrever o primeiro média-metragem da vida dele na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. E não é que meses depois ele recebeu um convite para exibir seu filme no evento? “Sneakers – Entrando de Sola na Cultura Urbana” teve três exibições na programação normal e ainda foi parar na repescagem da competição. A obra traz nomes como Alexandre Herchcovitch (estilista), Fabio Cristiano (skatista), Fabrício Costa (designer da Nike), Flavio Samelo (artista plástico e fotógrafo) e João Braga (historiador de moda) expondo suas experiências e mostrando suas coleções de tênis, lógico. Em cerca de uma hora de filme, ele mostra o que é um sneaker head, fala do crescimento dessa cultura do culto ao tênis, além de moda, música, artes e tendências.

Edson Soares (Foto: HelenaN/Flickr)
Aqui, você confere o bate-papo com ele sobre a cultura sneaker no Brasil e sobre a odisséia de se fazer um TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) sem nenhum recurso financeiro, porém com muita criatividade:
Descolex: De onde veio a idéia desse tema?
Edson Soares: Em 2006 fiz um intercâmbio de um pouco mais de um ano na França. Lá, do lado da sorveteria onde eu trabalhava, tinha uma sneaker shop. Foi assim que descobri que existe esse tipo de loja pequena, com modelos de tênis que você não encontra em magazines. Quando voltei pra São Paulo, vi que as primeiras lojas desse tipo já tinham sido abertas. Além disso, numa viagem a Goiás – eu sou de lá – um cara veio perguntar pra mim do tênis que eu estava usando. Ele sabia tudo do modelo, de quando tinha sido criado, por quem, quais eram os materiais… Fiquei impressionado. Como um cara naquele fim de mundo sabia tanto? Descobri, lógico, que a internet é fundamental. Todo mundo, de qualquer lugar, pode ser um sneaker head. Daí eu tava pra me formar, precisando decidir meu TCC e resolvi fazer um filme sobre o tema.
D: Quanto tempo você levou entre roteiro, produção, filmagem e edição? Como foi esse processo?
E.S: Eu primeiro assisti ao “Just for Kicks”, um filme francês sobre o tema. Depois, entrei em contato com o Ricardo Nunes, editor do SneakersBr, pra ele me ajudar, me dar umas dicas… De janeiro a março fiquei nessa pré-produção. Entre março e maio eu filmei e, em junho, editei. O grosso do filme ficou pronto em seis meses, enfim. E tudo sem orçamento: uma câmera era da faculdade e uma outra eu emprestei. Para as gravações, contei com a ajuda dos amigos. Elaborei um cronograma e passei pra todo mundo perguntando quem podia me ajudar em que, dentro daquelas datas. Uma amiga que faz administração, por exemplo, e que nunca pegou numa câmera, me ajudou nas filmagens. A edição foi em casa mesmo. Já as animações, que dão uma cara super profissional ao trabalho, eu coloquei depois, pra a apresentação na Mostra.

Pedacinho da coleção de um dos entrevistados no filme (Foto: Edson Soares/ Flickr)
D: Qual foi a entrevista mais bacana desse documentário? Aliás, como você chegou a essas pessoas?
E.S: Uma das entrevistas mais importantes foi com o Flávio Samelo. Ele foi um divisor de águas no filme, porque parecia que eu tava meio cru nas entrevistas que fiz antes dele. Com o Flávio, senti que pela primeira vez eu estava inserido no universo sneaker. Daí, as entrevistas seguintes foram melhores que as primeiras, senti uma evolução natural do processo criativo. Para chegar nesses nomes, foi por indicações durante o trabalho de pesquisa e do pessoal que comentava no blog do filme. Todo mundo deu pitacos e ajudou muito. No começo, por exemplo, eu tinha medo de conversar só com colecionadores, aí sugeriram o professor João Braga, que deu um tom mais didático e embasamento teórico pro que estava sendo apresentado no filme.
D: E como rolou de apresentar seu TCC na Mostra?
E.S: Quando apresentei o filme na USP, um dos membros da minha banca avaliadora era o Kiko Goifman. Ele enxergou o filme sob uma ótica antropológica e curtiu pra caramba. Disse que eu tinha que inscrever o filme em festivais… Pô, o cara é um cineasta super respeitado, eu acreditei que ele devia saber o que estava falando, né? Resolvi inscrever. Coloquei no correio e esqueci. Até porque eu tinha certeza que não ia rolar. Seu eu entrasse no festival de Goiânia, tudo bem. Mas, na Mostra Internacional de Cinema? Passou um mês, um mês e meio, até que recebo um e-mail da organização da Mostra fazendo o convite. Eu estava trabalhando na hora que vi o e-mail, dei um grito no escritório que ninguém entendeu. Fiquei muito feliz, mais feliz do que quando recebi o diploma. Foram três sessões na mostra e uma repescagem depois.
D: Como você sentiu a recepção do público?
E.S: Tiveram duas sessões que lotaram. Na primeira, tinha muita gente desse universo senaker. Foi legal! Também descobri que o filme é engraçado… As pessoas riam em determinadas partes. Na saída, os mais velhos vinham falar comigo espantados com o fato de existirem pessoas que colecionam tênis.

Popó e Jimmy, da sequência “batalha de customizadores” do filme (Foto: Edson Soares/ Flickr)
D: Tem planos de lançá-lo comercialmente?
E.S: Tá rolando uma conversa com potencial patrocinador para ele financiar uma leva de cópias para distribuição gratuita. Eu não quero perder de vista que esse é um filme independente, feito sem grana, sabe? E eu tô sofrendo bastante, porque não entendo nada de produção executiva. Então, tá indo meio devagar essa negociação.
D: Você é um sneaker head?
E.S: Não. Tenho alguns tênis só, uns sete pares eu acho. O meu preferido é um Puma Clyde High Top branco. Tá mega detonado, mas eu amo ele. Se eu achar outro igual, eu compro uns dois… Bom, acho que to um pouquinho sneaker head, sim (risos).
D: E a cultura sneaker no Brasil? Tá crescendo?
E.S: Aqui, temos um limitador que é complicado: a questão da grana. É muito mais difícil pra um jovem brasileiro comprar um tênis do que nos EUA, por exemplo. Lá, com um trabalhão de verão, ele compra vários. Mas isso também não impede tanto o crescimento dessa cultura. O cara que curte, junta a grana e compra. E essa galera se comunica muito. O menino daqui fala com o cara da Alemanha, que avisa que saiu um modelo lá, que não tem em outro lugar do mundo… Ele compra, envia pelo correio pro cara daqui. Tem gente que já se ligou nesse potencial e começou a monetizar, a ganhar grana com esse mercado. O potencial do Brasil é enorme.